O que explica a alta da Bolsa e a queda do dólar?

17/06/2021
imagem mostra duas notas de dólares no primeiro plano com um gráfico da bolsa de valores desfocado atrás

Os preços dos ativos financeiros no mercado local têm apresentado melhora relevante desde maio. O principal índice da Bolsa de Valores ultrapassou a marca de 130 mil pontos no início de junho, o real se valorizou e se aproxima da marca dos R$ 5 por dólar e os juros dos títulos públicos prefixados com vencimentos longos (2031) chegaram a ser negociados abaixo de 9%.

Uma parte da melhora certamente está associada aos ventos internacionais favoráveis, o crescimento das maiores economias globais começa a se firmar, com Estados Unidos e China em fase mais avançada e a Europa começando a acelerar. O avanço da vacinação em larga escala, combinado com os estímulos dos governos e dos juros baixos faz com que a demanda nesses países tenha importante recuperação.

Com a demanda global em alta, os preços de vários bens e serviços começam a se recuperar, inclusive algumas commodities que o Brasil exporta, que têm apresentado alta intensa nos últimos meses. Essa dinâmica favorece a balança comercial do Brasil, amplia a entrada de dólares no país e reforça o processo de valorização da moeda brasileira.

Em complemento ao fluxo comercial, a melhora da economia global e os sinais de paciência dos governos em manter os incentivos, sejam fiscais ou monetários, estimulam fluxos financeiros para ativos de maior risco, inclusive ações e dívidas de governos e empresas de países emergentes, fator que conta bastante na valorização das moedas desses países.

Fatores domésticos

Os fatores globais ajudam a entender a valorização recente dos ativos brasileiros, mas não explicam na totalidade essa melhora. Na comparativa de desempenho dos ativos do Brasil com países de características similares, tanto a moeda brasileira quanto a Bolsa registram destaques. A moeda brasileira, por exemplo, apreciou de R$ 5,60 para R$ 5,05 por dólar (10%), enquanto outros países tiveram apreciação de apenas 3% no mesmo período.

Há elementos novos no cenário econômico do Brasil, o primeiro é a revisão substancial na expectativa de crescimento da economia para 2021. Está cada vez mais claro que os efeitos econômicos da segunda onda de covid foram bem mais discretos do que se previu, o segundo trimestre não deve ter contração e, com isso, a retomada do segundo semestre será suficiente para gerar crescimento ao redor de 5% em 2021, uma revisão expressiva em relação ao projetado.

A melhora substancial na perspectiva de crescimento traz outras duas implicações importantes para o cenário de 2021 e 2022. A primeira é que a melhora da atividade gerará acréscimo nas receitas do governo nos próximos meses, o que produzirá um déficit fiscal menor e um crescimento da dívida pública mais moderado.

A segunda implicação, que também ajuda a parte fiscal no curto prazo, mas traz algum risco à duração do cenário positivo, é o aumento da inflação. Com a intensificação da retomada da demanda, aumenta a chance de que a inflação continue pressionada nos próximos meses, o que reflete nas projeções para o final de 2021, com muitos analistas já estimando IPCA acima de 6%.

A inflação alta ajuda a fotografia fiscal no curto prazo, seja por aumentar as receitas vinculadas ao faturamento de empresas corrigidos pela inflação corrente, seja pelo efeito sobre o PIB nominal, que também é corrigido pela inflação.

O lado adverso é o risco de que o Banco Central tenha que reagir de forma mais intensa, com aumentos sucessivos de juros, para conter o risco de que ela não se propague para 2022 adiante. Por isso, apesar da conjugação favorável do momento, não se deve perder de vista a necessidade de se equilibrar as contas públicas, de criar condições que facilitem a atuação dos empresários, com melhor infraestrutura e simplificação tributária e a manutenção do rigor do Banco Central para reconduzir a inflação a níveis adequados, contribuindo para preservação do poder de compra, em particular, dos menos favorecidos. Resta aproveitar o momento positivo e fazer os ajustes para garantir uma saída saudável da economia pós-pandemia.

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Foto: Stadtratte / Getty Images