Bolsa brasileira: há defasagem em relação aos mercados globais?

10/02/2021
no primeiro plano, dois touros estão frente a frente em posição de confronto. no segundo plano, desfocado, um empresário aponta para os touros, enquanto uma luz amarela sai do seu indicador

É impressionante a diferença de desempenho entre as Bolsas americanas e a brasileira em 2020, assim como no início deste ano: enquanto os três principais índices acionários americanos vêm renovando recordes históricos de altas em sucessivos pregões, surfando a onda dos estímulos monetários e fiscais ao redor do mundo mais a esperança da vacinação contra a covid-19, o Ibovespa patina no mesmo lugar.

Estaria a Bolsa brasileira defasada em relação aos preços das ações das Bolsas globais, em especial as dos Estados Unidos? Há espaço para o Ibovespa recuperar esse terreno ou os fundamentos do Brasil não corroboram para uma valorização mais robusta das ações na Bolsa?

Até o início de fevereiro, por exemplo, o Ibovespa acumulava alta de apenas 0,57% em 2021, enquanto o índice Nasdaq - recheado de ações de empresas de tecnologia - registrava ganho de 8,53% e o S&P 500 subia 4,25%.

Em 2020, mesmo com um forte rali em novembro e dezembro, o Ibovespa fechou o ano com avanço de 2,92%, já o S&P 500 bateu recordes de alta 33 vezes e acumulou ganhos de 15,3%. O desempenho da Nasdaq foi ainda mais surpreendente: alta de 43,6% no ano passado.

Uma série de ruídos políticos afeta negativamente o humor do investidor em relação ao Brasil: desde a desconfiança quanto à ingerência política sobre os preços dos combustíveis praticados pela Petrobras até a sinalização de uma piora na trajetória fiscal com a pressão para a prorrogação do auxílio emergencial sem a contrapartida das Reformas para conter as despesas.

No longo prazo, algo próximo de 20 anos, o nível atual da Bolsa brasileira em dólar está, de fato, defasado se comparado com o das Bolsas emergentes ou de países desenvolvidos. Já levando em conta outras métricas, como a relação preço sobre lucro (P/L), utilizada por analistas para avaliar se uma ação está cara ou barata, a distância não é tão relevante assim.

O índice S&P 500 está sendo negociado no seu nível máximo histórico, com P/L estimado em 12 meses de 22 vezes, bem acima da média dos últimos 10 anos, que foi de 15,8 vezes. Já o P/L do Ibovespa está ao redor de 13 a 14 vezes, o que é elevado para sua média histórica e está próximo das máximas.

Muitos gestores e estrategistas de ações apostam que a tendência para a Bolsa brasileira neste ano é de valorização, especialmente quando se leva em conta a perspectiva de recuperação mais acelerada da economia global, em particular a da China, com estimativas de crescimento do PIB de até 9% este ano. Como os chineses são grandes importadores de matérias-primas, como minério de ferro, uma expansão mais forte da economia chinesa, em tese, favorece o desempenho do Ibovespa, que é bastante ligado às commodities.

Aliás, a falta de uma participação maior de empresas de tecnologia também explica, em parte, a diferença do desempenho dos índices acionários americanos, em especial o Nasdaq, e o Ibovespa em 2020. As ações do grupo conhecidos como FAANG (sigla para Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Alphabet, a controladora do Google) foram as que tiveram os melhores desempenhos em meio ao impacto econômico gerado pela pandemia. Em 2020, a ação da Amazon disparou 76,3% e a da Apple, 76,8%.

Olhando para a frente, o vento a favor dos preços mais elevados de petróleo, minério de ferro e outras commodities não vão, por si só, levar a um desempenho melhor da Bolsa brasileira neste ano, os fatores domésticos são decisivos. Em razão das incertezas fiscais, os investidores cobram um prêmio de risco do Brasil e os juros de 10 anos com base nos contratos futuros estão perto de 8%, apesar da taxa básica estar em 2%. E são os juros do longo prazo mais elevados que acabam reduzindo a atratividade das ações na Bolsa.

Sem a aprovação de reformas estruturais que gerem impacto fiscal positivo, controlando o aumento de gastos, dificilmente os investidores vão se sentir seguros em apostar na Bolsa brasileira no longo prazo. Os juros seguirão pressionados, assim como o dólar. E o crescimento do PIB, estimado em 3,5% neste ano, ficará aquém da expansão de outros países emergentes e desenvolvidos, limitando aos lucros das empresas.

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Foto: Marcus Millo / Getty Images