As mulheres ainda são minoria nos investimentos e essa participação cresce devagar

24/03/2021
mulher sentada à mesa com as mãos apoiadas em um tablet analisa gráficos da Bolsa

No último ano, em que nunca se ouviu falar tanto no termo ESG no mercado financeiro, o debate sobre a equidade entre mulheres e homens ganhou força. As práticas de sustentabilidade, sociais e de governança ganharam posição de destaque em empresas da Bolsa, gestoras e corretoras de investimento e a discussão sobre como reduzir a desigualdade entre os gêneros pegou carona. Porém, os números mostram que as mulheres ainda são minoria entre os investidores da B3 e do Tesouro Direto e que a participação delas cresceu devagar.

Apesar das mulheres serem a maioria da população brasileira (51,1%), segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), elas representam apenas 26,7% do total de investidores na Bolsa brasileira e 32,6% no Tesouro Direto. Tanto na B3 quanto na plataforma de títulos públicos para pessoas físicas, a proporção de investidoras nunca foi tão grande, mas o avanço ainda é lento.

Na Bolsa, em 10 anos, a participação das mulheres entre os investidores aumentou somente um ponto percentual, saiu de 25,3% em 2012, para 26,7% em 2021. Nesse período, a proporção de investidoras primeiro caiu por seis anos seguidos e, desde 2018, sobe ano a ano.

Ou seja, foi nos últimos anos em que a B3 viveu um crescimento generalizado de investidores pessoas físicas, que os números começaram a caminhar para um equilíbrio, mas ainda falta muito. Em fevereiro, a Bolsa tinha 924 mil mulheres com CPFs cadastrados e 2,5 milhões de homens, quase o triplo, totalizando 3,4 milhões de investidores.

Já no Tesouro Direto, o cenário é menos desigual. Em 10 anos, a participação de mulheres entre os investidores aumentou 12 pontos percentuais, saiu de 20,7% em 2012, para 32,6% em 2021. Nesse período, a proporção de investidoras subiu em todos os anos.

Criada para democratizar o acesso a títulos públicos, a plataforma é apontada por especialistas como uma das responsáveis por aumentar a base e a heterogeneidade de investidores no país. Em janeiro, o Tesouro Direto tinha 3,2 milhões de mulheres cadastradas e 6,4 milhões de homens, o dobro, totalizando 9,6 milhões de investidores.

Os números mostram que, apesar dos direitos conquistados pelas mulheres a cada ano e do debate sobre equidade de gênero no mercado financeiro ter ganhado força, o que foi feito até agora para atrair as investidoras, não foi suficiente para transformar a cara do mercado e aumentar a base de clientes. É praticamente um consenso de que é preciso evoluir, a questão é "como".

Realidade nua e crua
Diversos desafios explicam essa distância entre as mulheres e os investimentos ainda hoje. Apesar de mais anos de estudo e de frequentarem mais a escola, elas recebiam apenas 77,7% do rendimento dos homens em 2019, segundo a pesquisa “Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil”, divulgada recentemente pelo IBGE.

Em 2020, o saldo entre abertura e fechamentos de vagas com carteira assinada ficou negativo para as mulheres, mas positivo para os homens, segundo dados do Cadastro Geral de Empregos (Caged). Quando se fala da rotina em casa, a jornada da mulher é 10 horas e 24 minutos superior à do homem por semana, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). Então como mulheres sobrecarregadas podem arranjar tempo para aprender a investir?

"As mulheres são obrigadas a se virar. Foram abandonadas pelo marido, se desdobram em vários empregos para dar conta de filhos e netos. Não sobra tempo de pensar no futuro próprio", diz Ana Leoni, superintendente de educação financeira da Anbima e colunista do site Valor Investe. Já as mulheres da parte de cima da pirâmide social têm outros desafios. "Algumas têm muito dinheiro e não sabem lidar, porque sempre tiveram a tutela do pai ou do irmão, outras têm dívidas que desconheciam no casamento".

Nas mentorias que fez com mulheres, Ana conta que muitas queriam entrar na piscina dos investimentos, mas só conseguiam colocar o pé. "Elas tinham um comportamento tímido, queriam estudar mais antes de entrar". Falta autoconfiança e motivação, segundo Ana. Para elas, a segurança conta mais do que o retorno, segundo a pesquisa Raio-X do Investidor realizada pela Anbima.

"O mercado financeiro é predominantemente masculino e não atende às motivações delas. As publicidades falam de rentabilidade, performance, e a mulher quer investir para os filhos, para ter segurança. Faltam gatilhos para elas", diz Ana.

Como diminuir a desigualdade?
Formado majoritariamente por homens, o mercado financeiro pouco tentava se comunicar para incluir mulheres até pouco tempo atrás, seja como profissionais, seja como clientes. Agora, corretoras e assessorias de investimento começaram a organizar encontros com mulheres investidoras e nasceram empresas especializadas para atender mulheres.

A mudança também começou a acontecer de dentro para fora. A XP, maior corretora do país, assumiu a meta de, até 2025, contar com pelo menos, 50% de mulheres em seu quadro total de funcionários. Já o BTG Pactual abriu um programa de mentoria para estudantes mulheres. Empresas da Bolsa também se comprometeram com a causa, como a Suzano, a Natura e a Magazine Luiza.

Rebeca Nevares, chefe de marketing e sócia da Monte Bravo e fundadora do Ella's Investimentos, incorporado à Monte Bravo, também acha que a pauta evoluiu bastante no último ano, mas que agora que a bandeira foi levantada, falta contar mais histórias de mulheres.

“O que está faltando é a identificação. Mostrar mais referências de mulheres que investem. A Bolsa trazer uma mulher para contar como investir transformou sua vida. Botar a mulher no lugar de investidora e não da pessoa que está em busca de conhecimento”, diz. “A propaganda ainda tem muito homem.”

Representatividade importa
O ponto chave para aumentar a participação das mulheres entre os investidores é a representatividade, na avaliação de Maísa Oliveira, sócia e relações com investidores da Devant Asset. “As mulheres vêm conseguindo um espaço considerável de atuação. Vemos muitas analistas, gestoras de fundos, assessoras. Se uma mulher puder ser atendida por outra mulher, isso muda tudo. Ela passa a ver que não é um assunto masculino”, diz.

Ela também defende a ideia de corretoras, assessorias de investimento e gestoras criarem espaços de encontro dedicados a mulheres, ensinando sobre investimentos com base em situações próximas da realidade delas.

Isabel Lemos, gestora da Fator Administração de Recursos, concorda que representatividade importa. "Nas revistas sobre investimentos sempre tem um homem com uma calculadora. Tem que tornar tudo mais real para ser atrativo", afirma. "É importante ver mulheres contando histórias. Tem que ter mulher falando com mulher, uma relação mais pessoal, mais gentil".

Ela também acha que é questão de tempo para essa desigualdade diminuir. Isabel tem uma filha de 19 anos e conta que a relação dela com os investimentos já é diferente. "Ela quer ser independente. Quer fazer o dinheiro dela render, olha os mercados, desmistificou a aversão ao risco. Isso pode mudar e vai mudar".

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Foto: Prathan Chorruangsak / Canva

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